Web-documentário "Boca de Rua - Vozes de uma Gente Invisível" fala sobre o único jornal brasileiro feito por moradores de rua

No post de hoje vamos falar de um documentário muito bacana que foi realizado através do Programa Rumos do Itaú Cultural, por meio de uma ação inovadora no qual premiou 10 diretores brasileiros para a realização de web-documentários. "Boca de Rua - Vozes de uma Gente Invisível" é um documentário inédito que conta a história do único jornal do país produzido inteiramente por pessoas que moram na rua.




Com textos, fotos e ilustrações que revelam um pouco da realidade escondida nas grandes cidades, o veículo - fonte de renda para diversos participantes do projeto - é reconhecido mundialmente pela ONG International Network Of Street Papers (INSP). Até agora, mais de 150 pessoas passaram pelo Boca e cerca de 70 já deixaram de morar nas ruas. No jornal os integrantes aprendem a ler, a escrever e a lutar contra a invisibilidade. Adorei tanto a abordagem, quanto a estética do doc, com certeza esse trabalho merece ser visto e compartilhado pelo maior número de gente possível. Abaixo segue o vídeo e uma entrevista que fiz com o diretor do web-documentário "Boca de Rua". Confira!


O documentário tem a duração de 10 minutos e foi produzido pela Bigode de Gato Produções Artísticas e dirigido pelo Marcelo Andrighetti. A ideia para esse projeto surgiu a cerca de dois anos e para ter mais detalhes de como o doc foi feito conversei com o diretor. As respostas para as minhas "perguntinhas" foram grandes, pensei em cortar mas lendo achei tão legal e importante a experiência descrita por ele, assim como o material produzido, que por isso resolvi deixar a entrevista quase que na integra. Vale a pena ler e ver o "Boca de Rua".


Como foi o processo de realização do Doc. Boca de Rua?
Eu tinha a vontade de fazer um filme que funcionasse em qualquer lugar, que servisse de exemplo tanto pra moradores de rua de outras cidade, como para, sei lá, dentistas que tem vontade de abrir um negócio. Entende? Algo que mostrasse pra qualquer espectador que não é necessário um monte de coisas pra começar. Pra começar basta vontade. Para levar o filme nesse patamar e com essa visão distante, fizemos um acordo com a Boulevard Filmes, uma produtora do Rio de Janeiro com a qual já tínhamos um vínculo de amizade. Entramos no edital, fomos aprovados e começamos a frequentar as reuniões do Boca de Rua. Os integrantes do jornal, cerca de 35, se reúnem toda a semana para discutir as pautas, decidir como será o próximo jornal, quem vai cobrir o que… esse cotidiano de qualquer periódico. Comecei a ir nas reuniões sem câmera. Enquanto fazíamos reuniões semanais pra tratar do andamento das questões burocráticas do filme, a minha missão era ir pra dentro do veículo, não ficar vendo tudo de fora. Fizemos um pacto com os integrantes do jornal. E esse pacto foi um pedido deles: que a gente não fosse lá roubar algo deles. Não queriam que simplesmente gravássemos o filme e caíssemos fora. Ou seja, eles não queriam ser um produto. E nem eu queria isso! Neste formato, demorou até começarmos a gravar. Foram meses de imersão, pesquisa, conversas, indicações, leituras, etc. Foi um processo bastante colaborativo. Nunca gravamos em uma locação escolhida por nós. Sempre eles tinham a palavra final. Claro que a minha função era filtrar. Não saíamos gravando qualquer coisa. Sempre optamos por uma decupagem mais focada, um conceito pré-determinado, enfim, numa linguagem bem cinematográfica. E na produção em si tive a grande dádiva de trabalhar com profissionais que foram além do Set. Que me ajudaram muito o tempo todo, enviando e-mail, propondo referências, ligando, mandando mensagem por celular, emprestando equipamento, não cuidando o horário do almoço, essas coisas. E aos poucos isso tudo foi se transformando no filme. Foi bastante trabalhoso, corrido, com prazos apertados, mas com muito foco e determinação. Assim, a produção acabou sendo um processo de aprendizado muito válido pras nossas vidas. E digo nossas porque foi muito impressionante poder ouvir a equipe dando entrevista ao Boca de Rua e dizendo que havia mudado muito com a produção. Sempre digo que eu fui o que mais tinha dúvidas na equipe. E continuo com elas. Todos acabaram ajudando a resolver essas questões.


Como foi dirigir esse trabalho?
Extremamente desafiador. Por dois motivos. O primeiro deles é que sou antes de tudo ficcionista, da dramaturgia, de sets controlados, de planejamento de cena, de controle de horário. Sou descendente de italiano (risos) e fiz muita assistência de direção!! Porém, isso ajudou muito no desenvolvimento, já que a estética em que chegamos me remete muito à ficção: controle da câmera, som, fotografia, montagem, tratamento de cor, créditos, etc. Mas no princípio sofri um pouco para entender as diferenças desses modelos. A essência sempre se manteve. O que queríamos dizer foi sempre o mesmo. Mas o roteiro foi se construindo nas gravações, nas conversas, nas relações, na ilha de montagem. Passou. Acho que agora estou pronto pro próximo! Ou não. Acho que sempre tem algum desafio, que é o melhor de tudo, né. O segundo, e talvez maior desafio, foi me aproximar. Não foi difícil, mas foi trabalhoso. Foi um processo de imersão realmente. Li e reli muitos jornais, mudei diversas vezes de opinião sobre o tema “Jornalismo”, percebi muito mais as coisas do que estava percebendo. Comecei a olhar muito para a rua, para outros “invisíveis” e até sofrer um pouco com isso. Porque num panorama geral ninguém olha pra nada, a gente tá tão acostumado com um mundo muito cheio de coisas nossas. São nossos problemas, nossas agendas, nossos compromissos, nossas vontades, nossas conquistas. Mas e os outros? E o que não é nosso? Esse filme representa, pra mim, um recorte sobre uma parcela da população invisível ao senso comum. Não é uma população esquecida ou ignorada, é uma população tratada como inexistente. Infelizmente, acho que existem muitos outros esquecidos e inexistentes no mundo corrido e agitado em que vivemos. A terceira idade é um exemplo. Animais abandonados, crianças órfãs, entre outros. Podemos ampliar até para a própria cidade, muitas vezes abandonada, como no caso de prédios históricos simplesmente invisíveis aos olhos da grande população. Isso acaba sendo comum, porque somos motivados a cumprir um papel perante o grupo social em que estamos inseridos. Mas existem histórias que saem do comum e precisam ser contadas. Eu estava sentado em um bar, há cerca de dois anos, quando fui surpreendido por um morador de rua que vendia um jornal no qual ele havia escrito uma reportagem. Aquilo me causou uma sensação muito distinta pra mim (que, apesar de ter ido para o cinema, sou formado em jornalismo). Me senti completamente imerso num bloco de cimento, como se até hoje eu nunca tivesse feito nada na comunicação social. A partir daquele dia surgiu esse vontade de contar essa história da melhor forma possível, trazendo todo o sentimento que tive naquele primeiro impacto. Era um grupo de moradores de rua que fazia um jornal e que percebeu que era tido como invisível. Ou seja, eles estavam revertendo a lógica e dizendo “olhem pra nós, a gente existe”. E conseguiram.

Qual foi a sua satisfação em vê-lo pronto? Afinal através do doc o trabalho desses moradores de rua pode ser visível e quem sabe assim, faça com que a sociedade os enxergue com outros olhos.
O mais legal, depois de pronto, foi realmente lançá-lo. Te confesso que até o lançamento eu estava bem confuso. Mesmo com um monte de gente dizendo que achava o filme legal, que aquilo poderia ajudar, eu estava cheio de dúvidas. O que me deixou bem foi mostrar aos integrantes do jornal e moradores de rua o resultado. A partir daí passei a acreditar de cabeça no filme. Com eles sentindo o filme de maneira positiva eu entendi o que era o documentário. Entendi que esse filme não era um ato institucional de mostrar o lado bom, mas era um modo de ironizar com o lado bom, cutucar quem não faz nada perante o mundo. As pessoas se acostumam a ver filmes de maneira distante, sentindo pena dos ‘oprimidos'. O ruim mesmo é quando percebemos que a gente não faz nada por nós mesmos. Imagina pelos outros. Então, dá uma alegria grande saber que o filme pode ajudar neste ponto. Que os jornais podem ser vendidos mais, que os integrantes podem ser visto de outra maneira, que qualquer um pode fazer o que tem vontade. Eu me sinto muito grato por ter realizado este trabalho, justamente porque nesses 13 anos de existência do Boca, não me passa pela cabeça que nenhum documentarista tenha colado nesse projeto. O que acaba gerando um marco até na minha forma de trabalhar, viver, agir perante o mundo em que eu cai dessa vez. O que não dá pra negar é que esse assunto de visibilidade é tema de mestrado, doutorado..o que estou tentando dizer aqui é um resumo do meu próprio sentimento, nada acadêmico ou profissional. E sim um processo sensorial mesmo. 

Qual a importância do doc e do projeto Itaú Cultural para a sociedade e para aqueles que querem fazer audiovisual no Brasil?
Eu acredito muito na universalidade. Acho que os projetos de arte tem que funcionar em qualquer lugar do planeta. Mesmo que o tema seja restrito a um lugar, a essência desse tema tem que ser universal. No fundo somos todos muito parecidos e isso faz com que meu pensamento esteja muito próximo até de uma população de retirantes que vive na África. Com isso, a gente criou uma maneira de tornar a mensagem do Boca universal. Primeiro na co-produção Porto Alegre-Rio de Janeiro, criando uma ponte virtual na metade do Brasil. Segundo com a vontade de realizar um trabalho que chegasse em qualquer lugar, por isso as legendas em inglês e espanhol. Num terceiro momento, foi por isso que acreditamos demais na proposta do Itaú Cultural, na questão do Web Documentário, proposto pelo Programa Rumos 2012/2013. Percebemos assim que a internet está para o internauta assim como a rua está para o pedestre, por exemplo. Entende? O Itaú Cultural é uma entidade privada, que está trabalhando ao lado dos artistas brasileiros. Já lançou diversas figuras e, neste ano mesmo, apoiou um trabalho de Andrea Tonacci, por exemplo. Acho que é o caminho. É antigo essa maneira de fazer arte - do privado apoiar o artista. Vou te falar que eu prefiro editais desse porte, porque no final das contas a empresa patrocinadora quer que o filme dê certo. Já, no âmbito governamental, sabemos que não é sempre assim. O que vale é o número, o status, a quantidade…nem importa muito a qualidade. Nos contemplados do ano passado, o Itaú Cultural reuniu os dez diretores do país, fez todo mundo conversar semanalmente, debater, projetar, planejar, informar. Isso foi muito importante porque a gente se sentiu fazendo parte realmente de um circuito ou atividade artística com um propósito, uma vontade que era a de fazer um filme bom. Se pra eles era só pela imagem, tudo bem, porque pra mim ajudou um monte no produto final. E isso falta, tem que ter cada vez mais. Os realizadores novos precisam se conhecer, se comunicar, trocar ideias, fazer co-produções, interagir….

Quais são as expectativas de novos trabalhos e como vai ser feita a divulgação do Boca de Rua?
Olha, a gente tem trabalho bastante. Não só com cinema, mas com um tripé, que chamamos de Dança, Cinema e Poesia Visual. Lançamos o Boca, mas a Bigode também lançou este semestre um videodança, chamado Abre Aspas, com concepção e direção de Nicole Fischer. É um trabalho muito atual, com a junção de linguagens (cinema e dança) e equipes. O filme tá por aí entrando em festivais, mostras. No outro lado, lançamos também um curta meu, chamado Ao Teatro, ficção. Também estamos participando de algumas mostras e tentando alguns festivais. São trabalhos que vão acabar emplacando mais coisas no ano que vem, porque terminamos eles há pouco tempo, depois de um monte de festivais terem passado já. Estamos planejando muito 2014. Vai ser um ano cheio: alguns projetos de co-produção com o Rio de Janeiro, algumas outras coisas por aqui, algumas chances de séries para a TV Aberta e Fechada. Entra nisso tudo alguns projetos começam agora, de performance, dança e também fotografia, com exposições e outras coisas no campo das artes visuais. E por último ainda aparecem alguns trabalhos comerciais, aliados a marcas que temos feito. Não é publicidade, mas não é conteúdo também. Um meio termo disso, talvez. Enfim, estamos vivenciando aqui na produtora três momentos: produção, distribuição e viabilização.

Obrigada pela visita!

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