A burocracia de um casamento

Faz um mês que o tão sonhado dia do meu casamento chegou. Parece que foi ontem que vi a capela pela primeira vez e com lágrimas nos olhos decidi que aquele era o lugar que estava buscando na minha imaginação. Até agora não acredito que o dia mais esperado passou voando. Queria ter filmado cada detalhe, ou melhor ter vivido cada momento em câmera lenta. Ainda bem que existe a fotografia e a memória para guardar e capturar cada um dos detalhes.

  
A decisão

Já fazia algum tempo em que o Joaquim e eu conversamos que o nosso casório seria em 2013, depois da minha graduação. O que não esperávamos é que fôssemos mudar de país e isso nos fez repensar a data do casamento e principalmente o lugar onde ele seria realizado. Na verdade fico um pouco triste em constatar que o casamento virou um negócio e dos bons, ou seja, tudo que leva a palavra noiva é caro. Pensando nisso, sempre fiquei angustiada por pensar que um momento tão especial se vai em poucas horas e com ele, rios de dinheiro. É óbvio que se eu fosse rica ou milionária, não pensaria assim, porque dinheiro não seria problema e consequentemente não teria dó de usar.
Eu sempre imaginei um casamento diferente, ao ar livre, pela manhã ou ao entardecer, em uma capela pequena e encantadora. Com um clima mais intimista mas igualmente detalhista, delicado e especial. E acabei descobrindo que o diferente pode custar mais caro que o tradicional. Diante disso, ficamos um ano na dúvida, tentando decidir se faríamos o casamento no Brasil, para ter a presença da família e dos amigos ou se aproveitaríamos a nossa estadia no México para casar na praia em Cancún. Uma oportunidade dos sonhos. 
O tempo passou, a monografia me deixou sem tempo para nada. Até que em fevereiro fomos para Playa del Carmen, ao sul de Cancún, para visitar alguns hotéis que fazem casamentos. Eu tinha uma vontade de casar na praia, mas casar na igreja também era importante, por isso a dúvida era maior. Me lembro como se fosse hoje, no último dia resolvemos conhecer o centrinho de Playa del Carmen durante a noite. Descemos toda a Quinta Avenida, olhamos as lojas, restaurantes, artesanatos e quando chegamos ao final, nos deparamos com uma capela, a capela dos meus sonhos. Ela era branca, pequena, simples, mas infinitamente bela e acolhedora. O altar era redondo e em vez de parede, tinha vidro, e no fundo estavam o mar verde-esmeralda e as palmeiras. Sem mencionar, as plantas verdes naturais e as trepadeiras que subiam até o teto. E parecia saída de uma novela da globo, como A Indomada ou Tropicália. Ao entrar, não me contive, chorei de emoção e desejei casar ali. Foi amor à primeira vista.
 

 Os preparativos

Com essa ideia na cabeça, voltamos para Monterrey entramos em contato com a capela e foi aí que a nossa aventura começou. O casamento ia ser para poucas pessoas, apenas aquelas da família que conseguiriam ir. Avisamos a família, marcamos uma data que posteriormente foi alterada, fomos na paróquia mais próxima a nossa colônia e recebemos uma lista de exigências e documentos necessários para casar.
Vocês nem imaginam a burocracia que foi. Se tratando de casamento religioso as coisas são bem diferentes aqui. Os mexicanos são muito religiosos e praticantes. O nosso curso de noivos teve a duração de quatro domingos, mas valeu a pena, acredito que foi mais proveitoso o curso daqui do que os que realizam aí. Eu tive que ser crismada com direito a madrinha no auge dos meus 20 e poucos anos e para isso, fiz um curso intensivo de uma semana com a leitura, ou melhor o resumo da bíblia. Fiquei apavorada ao descobrir que naquela época a pedofilia era algo normal, que o José tinha 40 anos e que a Maria engravidou com 12 anos de Jesus.
Ah e o mais bacana, precisávamos de quatro testemunhas que nos conhecessem a mais de seis anos para uma entrevista individual com o padre. Ele é que decide se podemos nos casar ou não diante de uma interminável lista de perguntas sobre a sua vida e suas opiniões. Aliás, o Joaquim e eu também passados por essa entrevista. Mas o mais engraçado é que ele mais falava sobre o Brasil do que qualquer outra coisa. É claro que por sermos estrangeiros e por estarmos morando pouco tempo aqui, a exigência caiu para menos tempo. E tive que me confessar para a crisma e para o casamento. Aqui eles levam bem a sério isso, toda semana tem fila para que as pessoas se confessem antes, durante e depois da missa.
Lembrando disso tudo agora soa até divertido, mas durante o processo eu tinha vontade de chorar, porque sempre faltava algum documento ou tinha que fazer alguma coisa que ninguém havia nos comunidado. O cúmulo aconteceu quando a senhora responsável pela parte burocrática da paróquia me perguntou, com um tom de sugestão, porque eu não casava no Brasil? Pois eu sempre ia precisar entrar em contato com eles para conseguir algum documento e etc, e que isso daria muito trabalho. É claro que apenas sorri educadamente e expliquei que não sabíamos quando voltaríamos para o Brasil. Enfim, o bom é que hoje tenho muitas histórias para contar, inclusive vou começar a escrever um livro.


Como esse post já esta um pouco longo, amanhã posto sobre o dia do casamento e conto como foi essa experiência com mais fotos. E adoraria saber se mais alguém já passou por alguma situação assim durante os preparativos do casamento, deixe seu comentário!  

P.S. Descobri através de uma mexicana que esse hábito da entrevista com as testemunhas é antiga e tradicional. Eles ainda a mantém porque não faz muito tempo que alguns homens tentavam se casar com as suas amantes na igreja e assim mantinham duas famílias. Não preciso nem dizes que isso acabava em morte na maioria das vezes. Curioso, não?

Obrigada pela visita!

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